Quase metade dos agrotóxicos da América Latina são proibidos na UE

Meio Ambiente
Nearly Half Latin American Pesticides Banned in EU
Uma nova análise revela que 48,9% dos ingredientes ativos de agrotóxicos autorizados em grandes culturas da América Latina são proibidos na União Europeia, expondo lacunas regulatórias e crescentes riscos à saúde e ao meio ambiente.

Lacuna regulatória por trás dos pesticidas na América Latina: quase

O artigo no centro desta reportagem comparou as autorizações nacionais em oito países com a lista da UE de substâncias ativas aprovadas até dezembro de 2020. Ele destacou uma ampla variação na região: Costa Rica e México apresentaram as contagens mais altas de substâncias não permitidas na Europa (cerca de 140 e 135, respectivamente), seguidos pelo Brasil (115), Argentina (106) e Chile (99). Esses totais incluem compostos comumente usados, como o herbicida acetocloro, o inseticida bifentrina e o fungicida carbendazim — todos exemplos de produtos que os reguladores na Europa removeram, restringiram ou nunca aprovaram devido a preocupações sobre persistência, toxicidade para espécies não-alvo, potencial de desregulação endócrina ou outros riscos à saúde humana.

Por que existe essa divergência? A regulamentação da UE tende a ser precaucional e focada no perigo: substâncias que demonstram carcinogenicidade, desregulação endócrina, toxicidade reprodutiva ou persistência ambiental inaceitável são frequentemente proibidas ou não renovadas. Em contraste, as aprovações em muitos sistemas latino-americanos seguiram historicamente modelos de avaliação de risco que dependem de padrões de aplicação locais, considerações econômicas e, em alguns casos, conjuntos de dados enviados pela indústria. Pesquisadores que trabalharam na análise descrevem a estrutura regional como «consideravelmente menos rigorosa», observando lacunas na capacidade de monitoramento, vigilância de resíduos e reavaliação periódica de químicas mais antigas. A dependência econômica de culturas de exportação, a rapidez das aprovações para apoiar a agricultura intensiva e os recursos institucionais limitados ajudam a explicar por que tantas substâncias permanecem autorizadas ao sul do Atlântico enquanto a Europa as retira do mercado.

Culturas de exportação e vetores econômicos

A análise mostra que os pesticidas com maior probabilidade de serem proibidos na Europa concentram-se nas culturas que sustentam as receitas regionais de exportação agrícola. Soja, milho, trigo e arroz — as commodities com o maior valor de produção e exportação na amostra — representam a maior parcela de ingredientes ativos autorizados, mas proibidos na UE. Para governos e produtores, a pressão é clara: a estabilidade da produtividade e o controle de pragas para grandes monoculturas dependem frequentemente de ferramentas químicas que os reguladores globais veem cada vez mais como arriscadas.

Essa realidade econômica torna as mudanças regulatórias política e tecnicamente difíceis. Produtores e distribuidores de agroquímicos argumentam que proibições repentinas podem deixar os agricultores sem alternativas confiáveis, especialmente onde sistemas de manejo integrado de pragas (MIP) não foram amplamente adotados e os serviços de extensão são escassos. Ao mesmo tempo, cientistas de saúde pública e ambientais enfatizam que a dependência contínua de ingredientes ativos perigosos externaliza os custos de saúde para os trabalhadores rurais e comunidades vizinhas e degrada o solo, a água e a biodiversidade — resultados que, a longo prazo, prejudicam a resiliência agrícola e o acesso ao mercado.

Danos à saúde e ao meio ambiente dos pesticidas na América Latina: quase

A literatura científica e os estudos regionais de saúde documentam múltiplas vias de exposição e danos. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) relatou que o consumo de pesticidas na América Latina aumentou aproximadamente 500% entre 1990 e 2019, refletindo a intensificação da agricultura. Esse aumento traduz-se em taxas de contato muito mais altas para trabalhadores rurais e pessoas que vivem perto de campos, e em maiores cargas de resíduos nos alimentos, na água e até no leite materno. Um estudo de saúde pública multinacional publicado em 2024 detectou pesticidas em amostras de leite materno em pelo menos dez países latino-americanos, levantando preocupações sobre desregulação endócrina, neurotoxicidade do desenvolvimento e riscos de doenças na vida adulta para crianças.

Estudos clínicos e epidemiológicos aumentam o alarme. Trabalhos do estado do Paraná, no Brasil, associaram a exposição ocupacional crônica a pesticidas a formas mais agressivas de câncer de mama entre mulheres com histórico ocupacional na agricultura. Envenenamentos agudos continuam comuns em algumas áreas rurais devido ao treinamento inadequado, equipamentos de proteção individual insuficientes e acesso limitado a cuidados de emergência. Para os ecossistemas, os pesticidas impulsionam a perda de biodiversidade ao matar insetos benéficos (incluindo polinizadores), reduzir a diversidade microbiana do solo, contaminar sistemas de água doce e acumular-se em teias alimentares; neonicotinoides, piretroides e fungicidas persistentes foram todos implicados em tais danos em outros lugares e fazem parte da mistura sob revisão no contexto latino-americano.

Políticas e passos práticos para uma agricultura mais segura

Os pesquisadores que autoriarem a análise da Proceedings e especialistas em saúde pública defendem uma resposta em múltiplas camadas. No nível regulatório, eles recomendam proibições rápidas de pesticidas altamente perigosos (HHPs), protocolos harmonizados de avaliação de risco entre os países e ciclos obrigatórios de reavaliação para que químicas legadas não sejam mantidas indefinidamente. Eles também pedem um monitoramento expandido e direcionado — testes de resíduos em alimentos, biomonitoramento entre populações expostas e vigilância ambiental da água e do solo — para gerar as evidências locais que impulsionam mudanças políticas.

O que consumidores, sistemas de saúde e reguladores podem fazer a seguir

Os formuladores de políticas devem priorizar alguns passos imediatos: proibir ou eliminar gradualmente os HHPs comprovados, implementar um monitoramento coordenado regionalmente e tornar os dados públicos, fortalecer os protocolos de saúde ocupacional e a resposta de emergência em clínicas rurais, e financiar programas de transição práticos que substituam químicas perigosas por métodos eficazes e de menor risco. A sociedade civil e as universidades precisarão ser parceiras centrais em programas de treinamento e na condução de monitoramento independente; instituições científicas, como os conselhos nacionais de pesquisa, podem fornecer a base analítica para as reavaliações.

Para os consumidores, a conscientização sobre os padrões de resíduos e a demanda por alimentos produzidos de forma sustentável podem mudar os incentivos. Para os sistemas de saúde, a vigilância de envenenamentos, incidência de câncer e resultados de desenvolvimento em regiões agrícolas deve ser uma prioridade para que as decisões regulatórias sejam guiadas tanto por dados de perigo quanto por tendências de saúde no mundo real. A análise na Proceedings of the Royal Society B é um convite claro: harmonizar a regulamentação com a ciência emergente, proteger trabalhadores e comunidades vulneráveis, e investir em modelos agrícolas que reduzam a dependência de pesticidas perigosos, mantendo os meios de subsistência.

Fontes

  • Proceedings of the Royal Society B (análise comparando aprovações de pesticidas)
  • Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) estatísticas de uso de pesticidas
  • CONICET (Argentina) — comentário regulatório e de pesquisa regional
  • Pesquisa de saúde pública sobre resíduos de pesticidas e leite materno (revista de saúde pública revisada por pares)
  • Acordo comercial Mercosul–União Europeia (texto e análises de políticas)
Wendy Johnson

Wendy Johnson

Genetics and environmental science

Columbia University • New York

Readers

Readers Questions Answered

Q Quais pesticidas comumente usados na América Latina são proibidos na Europa?
A Os pesticidas comumente usados na América Latina que são proibidos na UE incluem o acetocloro (herbicida), a bifentrina (inseticida), o carbendazim (fungicida), o glifosato, a imidacloprida, a cipermetrina, o paraquat, a atrazina, o mancozebe, o glufosinato, a picoxistrobina, o fipronil e o tiofanato-metílico. Essas substâncias são aprovadas para grandes culturas como soja, milho e café em países como Costa Rica, México, Brasil, Argentina, Chile e Peru. Quase metade (48,9%) dos 523 ingredientes ativos aprovados na América Latina até 2020 são proibidos ou não autorizados na UE.
Q Quais riscos à saúde estão associados à exposição a pesticidas na América Latina?
A A exposição a pesticidas na América Latina está ligada a envenenamentos agudos, doença de Parkinson, danos irreversíveis ao genoma, carcinogenicidade, toxicidade reprodutiva e desregulação endócrina. Substâncias como paraquat, glifosato, mancozebe e glufosinato apresentam riscos que incluem genotoxicidade e toxicidade ambiental para humanos e animais. Essas preocupações com a saúde levaram a proibições na UE, mas persistem no uso na América Latina.
Q Por que quase metade dos pesticidas da América Latina são proibidos na Europa?
A Quase metade dos pesticidas da América Latina são proibidos na Europa devido à sua alta toxicidade para a saúde humana, animais e o meio ambiente, incluindo riscos de carcinogenicidade, genotoxicidade, desregulação endócrina e toxicidade reprodutiva. As regulamentações da UE estão entre as mais rigorosas do mundo, proibindo substâncias como acetocloro, bifentrina e carbendazim com base em avaliações de segurança rigorosas. Os marcos regulatórios menos rigorosos da América Latina permitem aprovações influenciadas por fatores econômicos, como a produção de culturas de alto valor.
Q Quais impactos ambientais os pesticidas causam nos ecossistemas latino-americanos?
A Pesticidas na América Latina causam contaminação da água, como ocorre com a atrazina poluindo fontes, e mortes em massa de abelhas causadas pelo fipronil. Eles são altamente tóxicos para os ecossistemas, afetando a biodiversidade e a vida animal em áreas agrícolas. Altas concentrações em culturas de exportação, como soja e milho, agravam os riscos ambientais.
Q Como as regulamentações de pesticidas na Europa diferem das dos países da América Latina?
A As regulamentações de pesticidas da UE são muito mais rigorosas, proibindo ou restringindo quase metade das substâncias aprovadas na América Latina após avaliações completas de risco à saúde e ao meio ambiente. Países latino-americanos como Brasil, Argentina e Peru possuem marcos menos rigorosos, aprovando ingredientes ativos mais tóxicos influenciados pela economia das culturas e pelo lobby da indústria. Isso resulta em uma profunda desigualdade regulatória, com a Europa proibindo o uso enquanto permite importações com resíduos mínimos.

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