David Gross subiu recentemente a um palco para aceitar um cheque de 3 milhões de dólares por uma vida dedicada a decodificar as leis fundamentais da realidade, mas ele não gastou seu tempo falando sobre a glória do cosmos. Em vez disso, o homem que ajudou a descobrir como o interior de um átomo funciona disse ao seu público que provavelmente não estaremos por aqui tempo suficiente para ver como a história termina. É um pessimismo impressionante vindo de um homem cuja carreira foi definida pelo otimismo — a crença de que a mente humana é capaz de compreender todo o projeto da existência.
Gross é um titã da física teórica, ganhador do Prêmio Nobel e um dos arquitetos da nossa compreensão moderna do mundo subatômico. No entanto, ele agora dedica uma parte significativa do seu tempo a avisar a qualquer um que queira ouvir que as chances de a humanidade sobreviver por mais 50 anos são infinitesimalmente pequenas. Ele não está falando de um sol distante explodindo ou de um buraco negro errante à deriva no sistema solar. Ele está falando sobre nós. Especificamente, ele fala da possibilidade muito real de nos autodestruirmos em uma troca nuclear nas próximas três décadas.
O homem que domou o quark
Para entender por que o aviso de Gross tem tanto peso, é preciso entender o que ele fez para ganhar aquele Breakthrough Prize de 3 milhões de dólares. No início dos anos 1970, a física estava um tanto desorganizada. Os cientistas conheciam os quarks — os minúsculos blocos de construção que compõem prótons e nêutrons —, mas não conseguiam entender por que eles permaneciam unidos. Não importava com quanta força você esmagasse os átomos, nunca se conseguia encontrar um único quark isolado. Era como se estivessem ligados por faixas invisíveis e inquebráveis.
Gross, junto com Frank Wilczek e David Politzer, descobriu uma propriedade chamada "liberdade assintótica". Pense nela como um elástico cósmico. Quando dois quarks estão muito próximos, a força entre eles quase desaparece. Eles se movem como se estivessem livres. Mas, no momento em que você tenta separá-los, a força fica cada vez mais forte. Quanto mais você puxa, mais o universo puxa de volta. Essa descoberta foi a peça final do quebra-cabeça da Cromodinâmica Quântica, a teoria que descreve a força nuclear forte.
Foi um momento de clareza profunda. Mostrou que o universo segue regras que são muitas vezes contra-intuitivas, mas matematicamente perfeitas. Esse sucesso alimentou o sonho da unificação: a ideia de que, se pudéssemos explicar a força forte, a força fraca e o eletromagnetismo, poderíamos eventualmente incluir a gravidade na mistura. Gross passou a segunda metade de sua carreira perseguindo essa "baleia branca" através do complexo mundo multidimensional da teoria das cordas.
A gravidade da nossa situação
Por que 35 anos é o número mágico para a catástrofe
A previsão de Gross de que a civilização poderia acabar em 35 anos não se baseia em uma nova equação física, mas em sua observação do comportamento humano e da volatilidade política. Ele não é o único de olho no relógio. O Bulletin of the Atomic Scientists mantém atualmente o Relógio do Juízo Final a 90 segundos da meia-noite, o mais perto que já esteve. Para um físico, o mundo parece um sistema que perdeu o seu equilíbrio.
A ironia é que a mesma física que Gross ajudou a promover — a compreensão do núcleo — é exatamente o que fornece as ferramentas para a nossa destruição. Dominamos as forças do átomo, mas não dominamos os impulsos das pessoas que as controlam. Gross sugere que seu tempo agora é dividido entre tentar resolver os problemas mais difíceis do universo e tentar convencer as pessoas de que precisam sobreviver tempo suficiente para ouvir a solução.
Há um tipo específico de frustração em seu aviso. É a voz de um homem que viu quão belo é o universo "sob o capô", apenas para olhar para cima e ver os passageiros tentando bater o carro. Ele argumenta que a grande barreira para uma teoria da gravidade quântica não é a falta de pessoas inteligentes ou a falta de matemática — é o relógio. Estamos, literalmente, ficando sem tempo para sermos inteligentes.
O custo de uma sinfonia inacabada
O que acontece se Gross estiver certo? Se a humanidade não conseguir superar o obstáculo dos 50 anos, deixaremos para trás um mapa da realidade inacabado. Identificamos as partículas, mapeamos as forças e até vislumbramos os primeiros momentos após o Big Bang. Mas a unificação final — a equação única que poderia explicar tudo, desde o nascimento de uma galáxia até o piscar de olhos — permaneceria um fantasma.
Alguns críticos argumentam que Gross está sendo excessivamente dramático. Eles apontam que a humanidade sobreviveu à Guerra Fria, à Crise dos Mísseis em Cuba e a inúmeros outros cenários de "fim dos tempos". Eles sugerem que a ciência encontrará uma maneira de continuar, mesmo em um mundo fraturado. Mas o ponto de Gross é que o *tipo* de ciência que fazemos hoje — os esforços multibilionários e multinacionais como o CERN ou o Telescópio Espacial James Webb — não pode sobreviver em um mundo definido pela tensão nuclear e pelo isolacionismo.
Um chamado às armas para o intelecto
A guinada de Gross da física pura para o alerta existencial é um lembrete de que os cientistas não vivem no vácuo. O prêmio de 3 milhões de dólares que ele recebeu é um testemunho do que podemos alcançar quando estamos no nosso melhor — curiosos, colaborativos e focados no infinito. Mas seu discurso foi um lembrete do que acontece quando estamos no nosso pior.
O desafio que ele coloca não é apenas para que seus colegas físicos trabalhem mais rápido. É um desafio para o resto de nós garantirmos que ainda exista um mundo no qual esses físicos possam trabalhar. Somos a primeira geração de seres humanos com potencial para entender toda a história do cosmos, desde o tempo zero até os dias atuais. Seria uma piada cósmica se fôssemos também a geração que decidiu que o experimento não valia a pena ser concluído.
Gross não desistiu da matemática. Ele ainda está trabalhando nas cordas, ainda tentando ver como o espaço-tempo se comporta nas menores distâncias imagináveis. Mas seus olhos agora estão firmemente no horizonte. Ele sabe que a variável mais importante na equação do nosso futuro não é a gravidade ou a força forte — somos nós. Se quisermos conhecer os segredos dos deuses, primeiro temos que sobreviver aos impulsos dos primatas.
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